Veja como foi o debate sobre as estratégias a serem adotadas para combater os ataques as casas do Rio de Janeiro – Ilê Omiojuaro

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DIRETO DO RIO DE JANEIRO – Ilê Omiojuaro

Danielle Theodoro hoje na casa da saudosa Mãe Beata – Rio de Janeiro onde está acontecendo um importante encontro para o debate sobre as estratégias a serem adotadas para combater os ataques as casas do Rio de Janeiro.

Por Danielle Theodoro:

Baba Adailton abriu a reunião ressaltando que as religiões de matriz africana não são racistas, não são machistas, não são transfóbicas, homofóbicas e lesbofóbicas.

“Não tacam pedra em ninguém e nem invadem nenhum templo religioso. Somos ubuntu. Somos uma construção coletiva. O dia hoje é de luta. Não devemos ser coniventes com o genocídio da população negra. Não achemos que o tráfico é que é o nosso inimigo. Queremos resgatar o nosso direito. Se rasgam a constituição Federal brasileira…façamos outra juntos e juntas.

A causa é uma causa da sociedade brasileira e juntos precisamos construir uma agenda que abarque essa ótica. Contamos com a presença de religiosos de muitos segmentos e com o apoio de muitos órgãos. Pastor Henrique representando um segmento protestante. Representantes da Igreja Católica.”

A mesa esta sendo composta por Mãe Meninazinha de Oxum, Pastor Henrique, Ekedji Lúcia Xavier e muitos religiosos imbuídos na luta contra a Intolerância religiosa.

Mãe Carmem de Oxum, que teve a casa violada, estava presente. Mãe Cármen é Yalorixa, a filha é evangélica, o marido é pastor e o genro também. Porém, ela, no terreiro dela foi obrigada a fazer o que todos vimos no vídeo. Todos estavam tomados de muita emoção, muitos participantes chorando emocionados. Lembraram que hoje está fazendo 16 dias do primeiro ataque em Nova Iguaçu e que estávamos todos  mostrando que isso não será esquecido.

Mãe Flavia Pinto da Casa do Perdão, ressaltou que o crime que estamos tratando é um dos crimes mais antigos da humanidade. “Não estamos falando de algo novo com diferentes formatos e roupagens”. Falou sobre as capacitações feitas pelo Ceppir. Disse que a Umbanda é uma religião cristã e que não há absolutamente nada contra Jesus porém, que toda a educação é pautada sob a visão de somente uma ótica e é nossa responsabilidade desconstruir isso para que não assassinemos os saberes tradicionais.

Falou ainda que aqui matamos e escravizamos por mais de 400 anos e que é impossível combater o preconceito se não trabalharmos nossa história. Citou Martin Luther King como uma de suas inspirações, dizendo que devemos contar nossa história incansavelmente para nossos pares, quantas vezes for necessário.

Contar essa história é fundamental. Quem estão querendo colocar como nossos algozes, nasceram da mesma barriga preta que a maioria de nós. Ressaltou os saberes de um povo que foi estuprado, que foi violado, que foi colonizado. É preciso dizer para essas pessoas sobre nossa história e mais importante que contar tempo na religião, é contar quantas vidas salvamos dentro de um terreiro. “Essa é a história que precisa ser contada”.

Professora Stella Guedes Caputo, yawo de Logun Ede e pesquisadora da UERJ disse “aqui fala como pesquisadora e sobre o papel da universidade junto aos terreiros, o papel do intelectual e do grupos de pesquisa não pode ser esporádico”. Diz que o papel do grupo deve ser uma atribuição cotidiana ao longo dos anos junto aos terreiros.

Falou que quando começou a pesquisar criação e jovens de terreiro, denunciando o racismo religiosa nas escolas, muita gente estranhou. Lembra que ainda há muita discriminação na escola e que isso foi construído ao longo da história. Falou que terreiro e universidade, cada um guardando suas singularidades, devem estar juntos na produção do conhecimento coletivo. “É chegado o momento de não excluir ninguém da luta, é uma luta de todos. Não devemos nos separar e devemos aprender com os mais velhos, com a dor do outro. O papel dos grupos de pesquisa deve ser um papel de diálogo.”

Pastor Henrique Vieira, da Igreja Batista do Caminho, ressaltou a emoção em participar dessa espaço nesse momento e com muita franqueza e sinceridade pediu para denunciar algumas vozes evangélicas com espaço na mídia. Afirmou que obviamente essas vozes não representam a totalidade do movimento evangélico no BRASIL e que tem estimulado esse ódio e é essa violência. Afirmou que se Jesus aparecesse aqui hoje, certamente ele seria crucificado por essas pessoas. Pediu perdão a todos. Resgatou a negritude de Jesus. Afirmou ser preciso enegrecer Jesus e resgatar seu caráter negro, popular e revolucionário de Jesus. Disse q estamos todos juntos e que esse ubuntu também o compreende. Devemos fortalecer os laços e lutar contra essa lógica de estado que criminaliza a população negra. “Não haverá democracia real se não houver uma reconciliação com nosso povo. Devemos olhar pra trás e se não houver mecanismos de reversão e combate efetivo ao racismo institucional e cultural não haverá futuro para o Brasil”. Terminou citando Martin Luther King, pedindo para lembrarmos de todos que resistiram por nós…no chicote, na escravidão.

Destacaram que em 2005 foi a primeira vez que denunciaram o que estava acontecendo na Ilha do Governador em relação a intolerância religiosa e que precisamos de muitas medidas, devido a proporção que isso tomou. “É preciso pressionar o poder público para tal. Está sendo organizado um documento da OAB com manifestações e a ideia é fazer uma apresentação dessa denúncia aos organismos internacionais.”

Mãe Carmem de Oxum ressaltou a importância de participar da Caminhada a Favor da Liberdade Religiosa amanhã, no Rio de Janeiro, às 13h, no Posto 6 em Copacabana.

Uma das Iyas que teve se barracão invadido ressaltou que se sentiu dentro da Senzala, enquanto a pediam para violar seu sagrado. Uma dor imensa que emocionou a todos os presentes.

Baba Adailton, num discurso muito emocionado, mostrou  o orgulho de ser negro e de ser de axé, disse  que somos filhos de deuses e deusas e que adoramos árvores, águas, o ar…e nossa comida é coletiva. O Padre José Antônio, da Arquidiocese de Nova Iguaçu, junto a seu Vigário afirmou que essa luta começa também na formação dos futuros padres. E que a dor do povo de santo também é a deles. Pediu coragem e que não deixemos que essa data seja esquecida. Ressaltou a brutalidade do ato. E se perguntou o que se está fazendo por essa sociedade, se solidarizando com todo o povo de santo.

Ogan Aderbal ressaltou que foi criado com a arma na cabeça nesse território e não admite que coloquem culpa nas vítimas. Afirmou que não queremos esse sistema de conhecimento profanador e usurpador do verdadeiro conhecimento da humanidade. Disse que não toleramos mais que o município de Nova Iguaçu faça campanha para o pastor Marcos Pereira, um criminoso. Afirmou que o inimigo tem nome. Falou sobre a aliança do Estado Brasileiro com as denominações neopentecostais que estão na mídia, na universidade e por toda a parte.

Deputado Flávio Serafim falou sobre as peças que estão apreendidas no Museu da Polícia Civil e sobre o esforço que seu gabinete tem feito para tal. Solidarizou-se com todo o povo de santo e reafirmou que essa batalha também deve ser feita no plano cultural.

O representante da Polícia Civil afirmou que toda e qualquer notícia que está chegando na delegacia está sendo apurada. Ressaltou que tem 6 inquéritos instaurados, e que estão sendo coletadas todos os tipos de provas. Afirmou que os inquéritos estão avançados e que a coleta de provas em breve será direcionada a conclusão para o Ministério Público. Pediu desculpas a Iyalorixa que teve seu terreiro invadido e que afirmou ter recebido um tratamento na delegacia que fez a denúncia no sentido de ter sofrido um simples furto. Ele se solidarizou com todo o povo de santo e afirmou que em 40 anos de polícia já viu muitos casos mas que essas sucessivas depredações a templos espirituais realmente tem sido muito impactantes.

Ekedji Lúcia ressaltou que não devemos ter generosidade no trato com esses crimes. Que esses crimes também são crimes contra todas as mulheres negras. Precisamos de soluções efetivas. Ressaltou que a polícia, além de apurar, precisa nos prover segurança.

Ressaltou que precisamos chamar a atenção da sociedade pro crime que ela também está cometendo se continuar se mantendo passiva ante a esses atos. Afirmou que não dá pra ninguém colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo ante a isso.

Afirmou que reparar essas famílias e essas casas é fundamental.

“A convocação da reunião não foi só pá falar de nossas dores, mas para tomar atitudes concretas. No mês de Setembro estamos em alerta vermelho e devemos passar até o final do ano cobrando das instituições públicas as medidas de segurança. Voltaremos a discutir o que o Estado fez para aumentar a nossa segurança e permitir que vivamos a nossa religiosidade livremente.”

 

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1 COMMENT

  1. Saudações.

    É louvável o movimento.

    Somente penso que não se trata de racismo, mas de fundamentalismo religioso no combate à “obra do mal”.

    Segundo dados do IBGE 2010, a maioria evangélica é afrodescendente, e a maioria nas religiões afro-brasileiras são brancos (podemos corroborar com dados, se necessário).

    Portanto, é preciso rever a tese do racismo religioso.

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