Como Yemoja passou de Orisa do rio na África para Orisa do mar no Brasil

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Dia 2 de Fevereiro definitivamente é o dia mais conhecido para cultuar Yemoja no Brasil.

Debates intensos, precisamos começar assim! É a maneira que encontramos para tentar remontar o caminho que Yemoja pode ter percorrido para sair da África, da terra Yoruba (Nigeria e Benin), como uma deidade principal do RIO ÒGÙN, para então se tornar na diáspora a Rainha do mar.

Precisamos também lembrar que mesmo na terra Yoruba, ela sendo deidade principal do rio, não é errado cultuá-la no mar, ela pode ser cultuada em todo corpo de água, assim como Osun e outras Orisa ligadas a água.

Não pretendemos  fazer aqui uma tese de doutorado, e tão pouco dar a todos a conclusão final. Apenas queremos compartilhar com vocês nossa trajetória até aqui.

Já Ouviu está canção?

(candomblé ketu)
Ògùn ó Yemọja Ògùn ó Yemọja
Ẹ lódò ẹ lódò ṣà wẹ̀ a Ògùn ó Yemọja
Ìyá àwa ṣé wẹ̀
Yemọja dó ó rere Yemọja
Ìyá àwa ṣé wẹ̀
Yemọja dó ó rere Yemọja

Ògùn (rio) é de Yemọja
Ògùn (rio) é de Yemọja
( Ẹ lódò ẹ lódò ṣà wẹ̀ a Ògùn ó Yemọja – dona do rio é dona do rio,  O Ògùn (rio) é de Yemoja)
Aos seus pés, Aos seus pés
Lá escolheu se banhar
Ògùn (rio) é de Yemọja
A mãe nos banha
Yemọja nos abençoa, Yemọja
A mãe nos banha
Yemọja nos abençoa, Yemọja.

Transcrição da letra: Cantando para os Orixás – Altair t’Ògún  – Por Diego Miguel.

E está?

(candomblé Ketu)
Orin Yemọja:

Ìyá àgbà ó dé re ṣe
A kì ẹ Yemọjá
A kọkọ pè ilé gbè Awoyo
Odò fi a ṣá wẹ̀ rẹ̀ ó

Tradução:
A velha mãe chegou, ela é gentil
Primeira que chamamos, ela nos protege Awoyo
Ela nos escolheu e nos leva até o rio dela para nos lavar

Tradução: Diego Miguel

veja na parte inferior da pagina as canções recolhidas por Altair t´Ògún de  no candomblé Ketu ( adicionado em 3/02/207) e outras canções.

Por Renata Barcelos:

Estudei o caso de Salvador por entender que ali estão os primeiros cultos afro descendentes aos Orisa.

Yemoja chegou no Brasil como deidade da água doce assim como é conhecida em terra Yoruba.

Seu nome YEYE OMO EJA  – Mãe dos filhos peixe, criou atração dos pescadores, que passaram a cultuá-la devido a escassez de peixes na Praia Rio Vermelho ( Praia de água salgada em Salvador)  por volta de 1920 – 1924, levando então o culto da água doce para o mar.

Com os anos, o que foi uma simples oferenda, passou a ser ritual e a atração começou a popularizar  e entrar no calendário de Salvador substituindo a festa a Sant´ana que era realizada no local. Não acho neste caso que foi um sincretismo religioso mas sim, que Yemoja foi adotada pelos pescadores que abandonaram então o santo católico

Jorge Amado  por volta de 1940 compra uma casa na Praia Rio Vermelho em Salvador, mas já em 1936 no seu livro Mar Morto refere-se a Yemoja como a  “senhora dos Oceanos'” ajudando a disseminar a informação depois outros autores, musicas, traduções do Yoruba de forma equivocada, fortaleceram Yemoja como rainha do mar.

Incluo que Jorge Amado sabia da origem de Yemoja, em um trecho especifico fala que ela Mora mesmo na pedra do Dique, em menção clara a ao dique do tororó de águas doces  onde seu culto era realizado anteriormente ao mar:

Jorge-amado2

O fato de Yemoja ser adotada por pescadores fez com que alguns também a a reconhecessem como Nossa Senhora dos Navegantes que tem sua Festividade católica no dia 2 de fevereiro junto com Nossa Senhora das Candeias.


salvador 298

O ponto de partida começou mesmo lá na África, precisei descobrir se de alguma maneira Yemoja era cultuada no mar em terras Yorubas, depois de conversar com inúmeros sacerdotes, encontrei dezenas de fotos, registros de muitos cultos de Yemoja em terra Yoruba todos realizados em rios. Tamanho foi nosso encontro que criei com outras pessoas  uma página no facebook chamada @yemojaolodo, e também um grupo no facebook chamado de Yemoja Olodo A senhora do rio. Durante meses, toda nova descoberta foi compartilhada nestes canais, seja uma foto do culto, um sacerdote falando ou um livro. Sendo assim, está armazenada toda a fonte de pesquisa que não deixa dúvidas que Yemoja sempre foi e ainda é a deidade do RIO para os Yorubas. Sendo Olokun a deidade suprema do Mar.

(https://www.facebook.com/groups/1715532108774477/  e  https://www.facebook.com/yemojaolodo/)

ou para quem quiser ver algumas imagens do culto de Yemoja na Nigéria: http://orisabrasil.com.br/Loja/yemoja-em-terras-yorubas/

Para deixar aqui em registro, Willian Bascom em coleta dos Itan de Odu em terra Yoruba publica em sexteen cowries, 5 versões de um itan  colhido em varias regiões onde Yemoja tem o mesmo destino – se transforma no Rio ògùn

Ogunda – (Odu Oosa – erindilogun)

Como um jogo, como uma piada,

Ela caiu no chão e virou um rio

É o rio que todos chamam de Rio Ògùn

A esposa de Okere é o Rio Ògùn

E no mesmo dia sua segunda esposa se tornou um rio

Ela é o Rio Ofiki.

…. ( Traduzido do original em inglês por Renata Barcelos)


Assim sendo, Yemoja sai da Nigéria e Benin como Deidade do RIO, e chega no Brasil como deidade do RIO.  Claro a natureza dos Orisa preservada para formação dos cultos afro brasileiros.

Outro fato que comprova que a informação Africa – Brasil chegou corretamente é que a saudação até hoje mais utilizada para Yemoja é

ODO IYA = Mãe do Rio, sendo que mãe do mar em Yoruba seria OKUN IYA ( da versão brasileira de saudação – Baba Nathan Lugo aponta que o correto seria Iya Olodo – mãe do rio – odo iya é rio de mãe… ou seja para falar mãe do mar.. seria: IYA OLOKUN, e Olokun já é a Orisa)

Abaixo vários Orin (cantigas de candomblés Ketu colhidas) onde falam de Yemoja como deidade do rio.

Vídeo com algumas cantigas de candomblé Ketu, traduzidas como Rio:

Raymundo Nina Rodrigues, no Livro Africanos do Brasil de registro de até 1940, registra: Yemoja nesta cidade é a deusa do Dique, fala inclusive da visita ao Gontois em 1899 e ainda diz que Olukun ( mar) é pouco conhecido entre nós. Dique – referente ao Dique do Tororó em salvador, uma represa de água doce construída no seculo 17 em um vale natural.

Edison Carneiro (1936, p. 54), ao escrever sobre as religiões negras, afirma que Iemanjá mora no Dique do Tororó e que os adeptos do candomblé faziam oferendas para a Mãe d’Água nesse local. No entanto, a partir de 1924, as homenagens passaram a ser realizadas com mais freqüência no mar.

Mesmo com a extensão litorânea do mar ser maior, o dique do tororó aparece como local de culto de deidades ligadas a água,  poderíamos aqui supor que as distancias dos primeiros candomblés para o dique eram mais próximas que o mar mas, lembrando.. Osun não se torna deidade do mar apenas Yemoja e também partimos do principio que a informação chegou corretamente da Africa: Yemoja a deidade do rio Ògùn.

Como Yemoja foi parar no mar? remontando a historia do 2 de fevereiro e a Praia do rio Vermelho.

Profa. Dra. Edilece Souza Couto(UFBA) relata: Até o início do século XX o Rio Vermelho tinha a atividade principal atividade econômica era a pesca e onde a elite costumava passar o verão.
Segundo os folcloristas Manoel Querino (1946, p. 127-130) e Hildegardes Vianna (1983, p. 27), que colheram informações no local, a primeira festa religiosa na praia era para Sant´Ana e  aconteceu na segunda década do século XIX.

Em 1924, um século após a realização da primeira festa, aconteceu o segundo conflito. A pescaria não estava dando os resultados esperados. Os pescadores começaram a ouvir dos próprios compradores que eles deveriam oferecer um presente à Mãe d’Água. No primeiro momento, ficaram temerosos de realizar aquela “bruxaria”, desconfiados quanto à eficácia de tal ato. Resolveram mandar celebrar uma missa na igreja e, em seguida, partiram para alto-mar a fim de oferecer o presente, composto de perfume e flores.
Não demorou muito tempo para surgirem comentários de que os pescadores não estavam realizando o ritual corretamente. Era preciso buscar ajuda de alguém que conhecesse bem o culto da Mãe d’Água. Eles solicitaram os serviços de Júlia Bogun, mãe-de-santo do Candomblé. Ela explicou como deveria ser um presente para Iemanjá, de acordo com o preceito africano.  O presente foi colocado na Casa do Peso e depois encaminhado ao mar na chamada segunda-feira gorda, último dia da festa de Sant’Ana ( PORTO FILHO, 1991, p. 96).

A data de 2 de fevereiro para a oferenda à rainha do mar só foi oficializada no final da década de 50, quando o presente passou a ser denominado Festa de Iemanjá. Esse é também o dia no qual os católicos festejam Nossa Senhora das Candeias. No entanto, é provável que a data não tenha sido adotada em função da homenagem a Nossa Senhora. Um texto escrito por José Pedreira (1951, p. 1), fala da entrega do presente da Mãe d’Água no dia 4 de fevereiro, sinal de que ainda utilizava-se uma data móvel entre o início do mês e o Carnaval.
Tudo indica que a primeira festa realizada em 2 de fevereiro tenha sido a de 1959, ainda como um presente para a Mãe d’Água dentro dos festejos de Sant’Ana

Outras fontes:

“A casa do peso( casa que fica na Praia do Rio Vermelho)  servia para a pesagem e vendagem do peixe que começou no ano de 1919, nessa casa nasceu o presente da mãe d’água como era chamada pelos pescadores do local. Depois do primeiro presente para Yemanjá no ano de 1924, a Casinha dos pescadores tornou-se um local sagrado dos adeptos do candomblé. Em 1972 tornou-se a Casa de Yemanjá. “(http://www.irdeb.ba.gov.br/tve/catalogo/media/view/620)

“Conta a história que, originalmente, foi no Dique do Tororó que os 25 pescadores de 1923, após uma escassez de peixes no Rio Vermelho,  mandaram colocar o primeiro presente, feito com uma caixa de sapato. A obrigação foi cumprida pela ialorixá Julia do Bogun. A festa começou, timidamente, 1924, timidamente, mas só ganhou o vulto que existe hoje na década de 60.” http://www.bahia.com.br/noticias/multidao-vai-ao-rio-vermelho-reverenciar-o-orixa-iemanja/

A data de 2 de fevereiro para a oferenda à rainha do mar só foi oficializada no final da década de 50, quando o presente passou a ser denominado Festa de Iemanjá. Esse é também o dia no qual os católicos festejam Nossa Senhora das Candeias. No entanto, é provável que a data não tenha sido adotada em função da homenagem a Nossa Senhora. Um texto escrito por José Pedreira (1951, p. 1), fala da entrega do presente da Mãe d’Água no dia 4 de fevereiro, sinal de que ainda utilizava-se uma data móvel entre o início do mês e o Carnaval.
Tudo indica que a primeira festa realizada em 2 de fevereiro tenha sido a de 1959, ainda como um presente para a Mãe d’Água dentro dos festejos de Sant’Ana (Profa. Dra. Edilece Souza Couto(UFBA)

Ouras FONTES:

Registros de até 1940 no Brasil: yemanjá é nesta cidade a deusa do dique, mimoso lago situado a meio caminho do rio vermelho de que nasce o pequeno Lucaia.
Para os negros e mestiços brasileiros, o mito de yemanjá se confunde com a mãe d água e o da sereia sob cujo a forma e esfigie a representam. No canbomble dos Gontois dos fins dos anos 1899, tive ocasião de ver como ídolos de yemanjá e oshun, duas sereias de gesso barato, mandadas vir do Rio de Janeiro, uma prateada, Yemanjá, a outra dourada a bronzilho, oshun, oshumare, o arco-íris, é muito popular entre nós: ao contrário olokun, o mar, é quase desconhecido, a hidrografia tem pois, na , mitologia nago deste Estado, uma forma menos elevada que a litolatria.

CURIOSIDADE – Rio Vermelho já tinha sua magia:

Século XIX — 

“A antiga aldeia dos pescadores ganhou fama com a descoberta de possuir ‘águas milagrosas’. Inúmeras pessoas chegavam atraídas pelos banhos de mar nas ‘águas medicinais’ do Rio Vermelho, que segundo crença popular curavam até beribéri, uma doença que na época fazia vítimas fatais. “(http://www.ubaldomarquesportofilho.com.br/paginas.aspx?id=194&tipo=2)

ddique do tororo 1920
Dique do Tororo em 1920

JORGE AMADO EM 1936 – Livro Mar  Morto

Sexto capítuloIemanjá dos cinco nomes

“Ninguém no cais tinha um só nome, inclusive Iemanjá, que tinha cinco nomes doces, conhecidos por todos:

IEMANJÁ, seu verdadeiro nome, dona das águas, senhora dos oceanos.”

“É Iemanjá que “é dona do cais, dos saveiros, da vida deles todos… Ela é seréia, é a mãe-dágua, a dona do mar…”

“Para os marítimos da Bahia, o mar, não é “a outra” nas suas vidas. Ao contrário, ele ocupa o lugar central. Em segundo lugar ficam as mulheres que esperam por eles no cais, e que eles sabem que um dia deixarão para ir ao encontro de Iemanjá. Êles têm plena consciência de que pertencem a ela. Tanto isso é verdade, que eles relutam contra o próprio casamento e a vida em família.: “Dizem os velhos, diz a canção, os homens do cais não devem casar.”

Relata também que outros pontos de água doce cultuavam Yemoja:

O pai de santo Anselmo era quem organizava as festa de Iemanjá, presidia as macumbas e, com ordem dela, curava as doenças. No Dique, nas Cabeceiras, em mar Grande, em Gameleira, em Bom Despacho e na Amoreira, seu dia é 2 de fevereiro. Já em Monte Serrat, onde a festa é a maior, seu dia é 20 de outubro. Porém todos se uniam para festejar Iemanjá.

Jorge Amado – Mar Morto em 1936:Jorge-amado

Casa de Jorge Amado no rio Vermelho:

Casa_Jorge_Amado_Rio

Fontes e agradecimentos:

Baba Nathan Lugo, Iya Omitonade, Luiz L Marins, Erick Wolf, Oosa Daara Adisa, Hérick Lechinski, Dra Paula Gomes e Awodélé Ilésire Sówùnmí

https://festasnobrasil.catracalivre.com.br/as-festas/festa-de-iemanja-mais-de-um-milhao-de-devotos-homenageiam-a-rainha-do-mar/Fontes:http://www.abhr.org.br/wp-content/uploads/2013/09/8.-Devo%C3%A7%C3%A3o-a-Iemanj%C3%A1-na-Bahia-de-Todos-os-Santos.htm

Verger, Pierre. Orixás: Deuses iorubás na África e no novo mundo. Ed. Corrupio, 1997. 

Amado, Jorge, Mar Morto, Editora Record

Projeto história: revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História. Edição 28, EDUC – Editoria da PUC/SP, 2004.

Carneiro, Edison. Religiões Negras: notas de etnografia religiosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936.

Couto, Edilece Souza.Devoção a Iemanjá na Bahia de Todos os Santos. UFBA.

outras fontes foram colocadas no corpo do texto.

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