﻿{"id":9394,"date":"2021-09-08T17:50:48","date_gmt":"2021-09-08T20:50:48","guid":{"rendered":"https:\/\/orisabrasil.com.br\/Loja\/?p=9394"},"modified":"2021-09-10T16:59:27","modified_gmt":"2021-09-10T19:59:27","slug":"ogiyan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/orisabrasil.com.br\/Loja\/ogiyan\/","title":{"rendered":"Candombl\u00e9 de olhos abertos: a materialidade da tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<figure id=\"attachment_9396\" aria-describedby=\"caption-attachment-9396\" style=\"width: 360px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-9396\" src=\"http:\/\/orisabrasil.com.br\/Loja\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/WhatsApp-Image-2021-09-03-at-11.18.27-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/orisabrasil.com.br\/Loja\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/WhatsApp-Image-2021-09-03-at-11.18.27-1.jpeg 752w, https:\/\/orisabrasil.com.br\/Loja\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/WhatsApp-Image-2021-09-03-at-11.18.27-1-220x300.jpeg 220w, https:\/\/orisabrasil.com.br\/Loja\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/WhatsApp-Image-2021-09-03-at-11.18.27-1-600x817.jpeg 600w, https:\/\/orisabrasil.com.br\/Loja\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/WhatsApp-Image-2021-09-03-at-11.18.27-1-750x1021.jpeg 750w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9396\" class=\"wp-caption-text\">Por Frederico A. Casonato Martins frederico.casonato@gmail.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text]Frederico Martins \u00e9 advogado em S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m formado em Filosofia, pela USP. O encanto pela cultura afro-brasileira brotou da literatura e se intensificou durante a sua passagem pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas, mais propriamente pelo departamento de Antropologia.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do inhame com Oxagui\u00e3 \u2013 ou \u00d2r\u00ec\u1e63\u00e0 \u00d2giy\u00e1n, orix\u00e1 jovem e guerreiro, originalmente cultuado em Ejigb\u00f4 \u2013 exprime verdadeiro contraponto do pensamento nag\u00f4 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia crist\u00e3. Se, para a tradi\u00e7\u00e3o religiosa ocidental, o sagrado \u00e9 acessado, de olhos fechados, atrav\u00e9s da subjetividade humana, para a tradi\u00e7\u00e3o legada pelos iorub\u00e1s este mesmo acesso se d\u00e1 de olhos abertos gra\u00e7as \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o material da natureza em cultura.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agostinho de Hipona \u2013 ou Santo Agostinho, como ficou conhecido na tradi\u00e7\u00e3o ocidental \u2013 foi um dos grandes expoentes da filosofia crist\u00e3 e tamb\u00e9m o respons\u00e1vel por transformar a f\u00e9 em verdadeiro combust\u00edvel para o exerc\u00edcio subjetivo do pensamento. S\u00e3o c\u00e9lebres, por exemplo, as passagens de sua obra <em>Confiss\u00f5es <\/em>em que reflete sobre as \u201cd\u00e1divas\u201d de um \u201cDeus invis\u00edvel, que as semeias nos cora\u00e7\u00f5es de teus fi\u00e9is\u201d, e das quais \u201cnascem frutos admir\u00e1veis\u201d. Para Agostinho, a \u201cVerdade\u201d s\u00f3 pode ser \u201csaboreada\u201d no \u201cfundo do cora\u00e7\u00e3o\u201d e acessada por \u201colhos invis\u00edveis\u201d, pois \u00e9 somente da quietude tamb\u00e9m invis\u00edvel do cora\u00e7\u00e3o que o Deus da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 se comunica com a sua principal cria\u00e7\u00e3o: os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esta maneira subjetiva de pensamento e de mergulho na interioridade contrap\u00f5e-se o pensamento nag\u00f4, \u201cfilosofia que come\u00e7a na cozinha da casa em vez de nos desv\u00e3os da metaf\u00edsica\u201d, como ensina Muniz Sodr\u00e9. Trata-se, portanto, de um modo de pensamento africano que se origina e se mant\u00e9m na objetividade material das ferramentas que preparam a terra, da lenha que aquece o fogo, da panela que cozinha o sagrado e das m\u00e3os humanas que transformam a natureza em cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as diversas express\u00f5es desta \u201cfilosofia a toque de atabaques\u201d destaca-se a import\u00e2ncia de certos elementos materiais na constitui\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias divindades nag\u00f4s, como o inhame para Oxagui\u00e3 \u2013 ou <em>\u00d2r\u00ec\u1e63\u00e0 \u00d2giy\u00e1n,<\/em> orix\u00e1 jovem e guerreiro, originalmente cultuado em Ejigb\u00f4, onde se tornou rei, Elejigb\u00f4. Escreve Pierre Verger que uma das principais caracter\u00edstica deste orix\u00e1 <em>funfun<\/em>\u00a0\u00e9 o seu \u201cgosto descontrolado pelo inhame pilado\u201d, o <em>iy\u00e1n<\/em>, raz\u00e3o pela qual lhe foi atribu\u00eddo o apelido de \u201cOrix\u00e1-Comedor-de-Inhame-Pilado\u201d, ou, em iorub\u00e1, <em>\u00d2\u00ec\u1e63\u00e0-j\u1eb9-iy\u00e1n<\/em>, <em>\u00d2r\u00ec\u1e63\u00e0jiy\u00e1n <\/em>ou <em>\u00d2r\u00ec\u1e63\u00e0giy\u00e1n.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica ensina que o inhame amassado era a comida preferida de Oxagui\u00e3, raz\u00e3o pela qual o jovem guerreiro jamais se sentava \u00e0 mesa se faltasse o tub\u00e9rculo. Narra tamb\u00e9m o mito que Elejigb\u00f4 s\u00f3 p\u00f4de vencer todas as guerras e se fartar de comer o inhame gra\u00e7as \u00e0 inven\u00e7\u00e3o do pil\u00e3o, que facilitou o preparo do inhame. Por conta disso, surgem duas importantes consequ\u00eancias rituais: como descreve Pierre Verger, quando um filho desta divindade \u00e9 por ela possu\u00eddo, traz sempre \u00e0 m\u00e3o um pil\u00e3o como alus\u00e3o simb\u00f3lica \u00e0 sua prefer\u00eancia alimentar. E mais: a festa que lhe \u00e9 oferecida todos os anos nos candombl\u00e9s \u00e9 chamado de \u201cPil\u00e3o de Oxagui\u00e3\u201d, em que \u201cuma prociss\u00e3o leva ao barrac\u00e3o pratos contendo inhame pilado e milho cozido, sem sal e sem azeite de dend\u00ea, mas com limo da costa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante ainda destacar que a prefer\u00eancia de Oxagui\u00e3 pelo inhame n\u00e3o apenas est\u00e1 de acordo com a materialidade da tradi\u00e7\u00e3o dos orix\u00e1s, mas a confirma cada vez que os mitos passam a se relacionar. Conta a mitologia dos orix\u00e1s que uma grande fome se abateu sobre o povo de Oxal\u00e1, pois, de tanto que se passou a comer o inhame, n\u00e3o se dava mais conta de plant\u00e1-lo. A sa\u00edda desta situa\u00e7\u00e3o foi oferecida por Ogum, que em sua forja fez ferramentas de ferro. Novos objetos materiais, como a enxada e o enxad\u00e3o, a foice e a p\u00e1, o ancinho, o rastelo e o arado surgem, ent\u00e3o, para que se plantasse e colhesse muito inhame. E mais: devido ao inhame, cultivado gra\u00e7as \u00e0 objetividade do ferro, a fome foi erradicada de Ejigb\u00f4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de tais narrativas m\u00edticas, nota-se verdadeira invers\u00e3o entre as filosofias crist\u00e3 e nag\u00f4: se, de um lado, o sagrado \u00e9 acessado, de olhos fechados, atrav\u00e9s da subjetividade humana, de outro lado, este mesmo acesso se d\u00e1, de olhos abertos, gra\u00e7as \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o material da natureza em cultura. Em outras palavras, o cultivo da terra por meio de instrumentos materiais possibilita a colheita do inhame, mat\u00e9ria que satisfaz a fome do povo de Ejigb\u00f4, constitui a pr\u00f3pria divindade iorub\u00e1 que carrega o tub\u00e9rculo em seu nome e demonstra, assim, o modo material de acesso simb\u00f3lico ao sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><b>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/b><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agostinho, Santo, Bispo de Hipona. <em><i>Confiss\u00f5es<\/i><\/em>. S\u00e3o Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prandi, Reginaldo. <em><i>Mitologia dos Orix\u00e1s<\/i><\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sodr\u00e9, Muniz. <em><i>Pensar nag\u00f4<\/i><\/em>. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2017<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Verger, Pierre Fatumbi. <em><i>Orix\u00e1s deuses iorub\u00e1s na \u00c1frica e no Novo Mundo<\/i><\/em>. Salvador: Corrupio, 2002<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text] [\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text]Frederico Martins \u00e9 advogado em S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m formado em Filosofia, pela USP. O encanto pela cultura afro-brasileira brotou da literatura e se intensificou durante a sua passagem pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas, mais propriamente pelo departamento de Antropologia. 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