﻿{"id":9535,"date":"2022-06-30T12:31:30","date_gmt":"2022-06-30T15:31:30","guid":{"rendered":"https:\/\/orisabrasil.com.br\/Loja\/?p=9535"},"modified":"2022-07-21T17:17:36","modified_gmt":"2022-07-21T20:17:36","slug":"aborto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/orisabrasil.com.br\/Loja\/aborto\/","title":{"rendered":"O Aborto em \u00c1rea Yor\u00f9b\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><strong><b>Aborto em \u00e1rea yor\u00f9b\u00e1<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Os Yor\u00f9b\u00e1 s\u00e3o formados pelos grupos de v\u00e1rias etnias que residem a \u00c1frica Ocidental e com maior popula\u00e7\u00e3o vivendo em Nig\u00e9ria.<\/p>\n<p>30% deles s\u00e3o de praticantes tradicionalistas de Orisa e o restante foi convertido para o islamismo e cristianismo.<\/p>\n<p>Para o contexto deste texto chamarei de Yor\u00f9b\u00e1 de forma generalizada para me referir aos praticantes de Orisa de \u00e1rea Yor\u00f9b\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Lei Federal<\/strong><\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o Federal atual da Nig\u00e9ria imputa a pr\u00e1tica de aborto como crime que pode levar at\u00e9 14 anos de pris\u00e3o, mas isso n\u00e3o quer dizer que abortos n\u00e3o ocorram. Assim como em muitos locais do mundo, mulheres recorrem a diversos recursos para executar tal ato.<\/p>\n<p>Segundo a autora do livro <em><i>Secret Strategies: Women and Abortion in Yoruba Society<\/i><\/em>, de 2003, Winny Koster, as mulheres que com mais frequ\u00eancia buscam o aborto s\u00e3o jovens.<\/p>\n<p>A autora ainda salienta que quase toda a comunidade nigeriana (inclui todas as vertentes religiosas) tem como padr\u00e3o de boa conduta que a mulher seja virgem antes do casamento, apenas devendo ter filhos se for casada.<\/p>\n<p><strong>O aspecto moral da comunidade yor\u00f9b\u00e1 ligada aos Orisa:<\/strong><\/p>\n<p>O casamento tradicionalista yor\u00f9b\u00e1 permite que homens tenham mais de uma esposa, e as esposas, um \u00fanico marido. Quando se casam, normalmente as mulheres mudam-se para o vilarejo do marido.<\/p>\n<p>Quando a mulher deixa a casa de seus pais, \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o que ela receba um Oja (um pano que se amarra nas costas) ,que \u00e9\u00a0 usado para carregar crian\u00e7as: \u00e9 um s\u00edmbolo da prosperidade para ter filhos, e um sinal social de que filhos s\u00e3o desejados para aquele casamento.<\/p>\n<p>Dentro do culto de Orisa, podemos ver muitos versos trazendo Ire Omo, a prosperidade para ter filhos, \u00e9 explicito ali que filhos s\u00e3o consideradas b\u00ean\u00e7\u00e3os na vida.<\/p>\n<p>O casamento yor\u00f9b\u00e1 tem se modernizado ao longo dos anos, por\u00e9m ainda \u00e9 intr\u00ednseca a compreens\u00e3o de que o casamento n\u00e3o se baseia apenas no amor ou desejo, mas, sim, engloba uma uni\u00e3o familiar.<\/p>\n<p>A moralidade sobre a compreens\u00e3o de uma fam\u00edlia prospera, e a condena\u00e7\u00e3o social \u00e9 um forte peso para que a mulher, em alguma circunst\u00e2ncia na qual engravide fora ou antes do casamento, queira recorrer ao aborto em segredo.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Os yor\u00f9b\u00e1s, de um modo geral, condenam o aborto<\/strong><\/span> baseados no argumento de que a mulher possui a ess\u00eancia prim\u00e1ria da reprodu\u00e7\u00e3o e continuidade; existe a ideia sobre o benef\u00edcio da ascend\u00eancia e da descend\u00eancia; ter filhos \u00e9 a certeza da continuidade de um legado; no entanto j\u00e1 entraram em discuss\u00e3o para determinar quando a vida no feto realmente come\u00e7a. Alguns tradicionalistas acreditam que a vida do feto s\u00f3 come\u00e7a depois de 4 meses e que, ao sofrer ou provocar um aborto, n\u00e3o haveria infra\u00e7\u00e3o contra a vida em si.<\/p>\n<p><strong>Quais as circunst\u00e2ncias levam as mulheres Yoruba a decidirem fazer um aborto:<\/strong><\/p>\n<p>-N\u00e3o querem ser m\u00e3e naquele momento;<br \/>\n-Ter engravidado recentemente<br \/>\n&#8211; N\u00e3o acreditam que seus companheiros v\u00e3o conseguir dar suporte;<br \/>\n&#8211; Sofreram estupro;<br \/>\n&#8211; Tiveram um romance passageiro e ficaram gr\u00e1vidas;<br \/>\n&#8211; J\u00e1 t\u00eam muitos filhos;<br \/>\n&#8211; Tem medo do estigma social de enfrentar uma gravidez n\u00e3o desejada;<br \/>\n&#8211; Rela\u00e7\u00e3o extraconjugal;<br \/>\n&#8211; A morte recente do marido;<br \/>\n&#8211; Problemas financeiros;<br \/>\n&#8211; Medo de contar para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Entre outros&#8230;<\/p>\n<p><strong>As causas que levam as mulheres declinarem a possibilidade do aborto mesmo que a gravidez seja indesejada<\/strong>: Medo de morrer com o procedimento, gravidez em estado avan\u00e7ado, medo que ap\u00f3s o procedimento n\u00e3o seja mais f\u00e9rtil, medo da condena\u00e7\u00e3o religiosa , n\u00e3o aprova\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e custos.<\/p>\n<p><strong>Onde as mulheres yor\u00f9b\u00e1 buscam ajuda?<\/strong><\/p>\n<p>A maioria das mulheres recorrem a cl\u00ednicas e hospitais clandestinos para fazerem pr\u00e1ticas abortivas, v\u00e3o at\u00e9 os sacerdotes e as sacerdotisas, e\/ou apenas herbalistas, que j\u00e1 tenham uma medicina pronta.<\/p>\n<p>Olomo were &#8211; s\u00e3o tradicionalistas yoruba ligadas ao conhecimentos da fertilidade.<\/p>\n<p>Onisegun; conhecedores de medicinas, normalmente fazem uso de recursos ligados ao conhecimento de orisa.<\/p>\n<p>Sacerdotes de Orisa\/Sociedades: os que cuidam e sabem dos segredos das deidades.<\/p>\n<p>Herbalistas .. j\u00e1 n\u00e3o mais ligados as praticas e Orisa,\u00a0 podem ser isl\u00e2micos ou crist\u00e3os vendendo preparados de ervas medicinais.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Como o aborto \u00e9 vetado por lei na Nig\u00e9ria, nenhum praticante tradicionalista ou m\u00e9dico ir\u00e1 deliberadamente comunicar que o faz.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff;\"><strong>Os sacerdotes e herbalistas nem sempre aceitam o caso<\/strong><\/span>, contudo avaliam o contexto em que essa mulher est\u00e1 inserida e, para evitar uma trag\u00e9dia maior, um aborto pode ser recomendado.<\/p>\n<p>As trag\u00e9dias maiores incorrem em fuga da mulher da comunidade; tentativas de autoaborto que poderiam ocasionar a morte da mulher; puni\u00e7\u00e3o severa da fam\u00edlia ou comunidade, em caso de estupro; a m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o da mulher, vista ent\u00e3o como \u201cde pouca sorte\u201d, que ter\u00e1 dificuldade de encontrar um marido; amea\u00e7as de suic\u00eddio etc.<\/p>\n<p>Um sacerdote antes de tudo avaliar\u00e1 se a crian\u00e7a no ventre n\u00e3o se trata de um antepassado querendo renascer.<\/p>\n<p>Em casos de estupro, a m\u00e3e e a crian\u00e7a ser\u00e3o avaliadas,\u00a0 a m\u00e3e poder\u00e1 passar por v\u00e1rios procedimentos a fim que se tire o &#8220;mau&#8221; causado pela viol\u00eancia f\u00edsica, mental e tamb\u00e9m espiritual, pode ser avaliado\u00a0 se existe algum m\u00e9todo para que, se crian\u00e7a\u00a0 nascer n\u00e3o seja alvo de algum mau espiritual.<\/p>\n<p>Em caso de gravidez por adult\u00e9rio: vamos lembrar que muitos casamentos, antes de acontecerem, podem ter tido a aprova\u00e7\u00e3o oracular sacerdotal, anci\u00f5es aprovaram a uni\u00e3o, um aborto poder\u00e1 ser avaliado,\u00a0 para que o acontecimento n\u00e3o possa destruir a expectativa\u00a0 e descredibilizar a todos.<\/p>\n<p>O livro Laws and Customns of Yoruba people, 1906-1924 de Ajise Moore d\u00e1 uma ideia dos sistemas yoruba de julgamento e puni\u00e7\u00e3o social. p\u00e1gina 34: Adult\u00e9rio \u00e9 um crime, em ambos os casos, homens e mulheres sofrer\u00e3o puni\u00e7\u00e3o, a mulher sofrer\u00e1 puni\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e do marido.<\/p>\n<p>As pesquisas referendas na bibliografia, mostraram que a\u00a0 maior parte dos relatos de mulheres que buscaram aborto, n\u00e3o eram casadas ou\u00a0 gravidas de seus\u00a0 maridos. No contexto do casamento, as mulheres e homens yor\u00f9b\u00e1 entendem filhos como um fator de ben\u00e7\u00e3o na vida, mas ainda que menos notificado,\u00a0 mulheres casadas, , tamb\u00e9m registraram que buscaram ajuda para o aborto, pois n\u00e3o julgavam ser o momento certo de ter filhos.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o sacerdotal n\u00e3o \u00e9 aceitar todos os pedidos que chegam, mas, sim, avaliar caso a caso a situa\u00e7\u00e3o, a fim de que se tenham mais ganhos sociais positivos. Apenas sob o entendimento da prosperidade yor\u00f9b\u00e1 de ter filhos, esse dilema n\u00e3o se resolve.\u00a0 J\u00e1 que existem em muitos casos, o desvio not\u00f3rio do carater humano, como no caso do homem estuprando mulheres.<\/p>\n<p>O dist\u00farbio social \u00e9, em si, a derrota religiosa. Sinal de que a religi\u00e3o n\u00e3o conseguiu completamente imputar seus valores para que a comunidade seja sadia, n\u00e3o evitou o estupro e outras situa\u00e7\u00f5es. Assim, ter\u00e1 que lidar de alguma maneira com o problema.<\/p>\n<p><strong>O problema a respeito do estupro em todos os locais do mundo \u00e9 um s\u00f3: n\u00e3o devemos ter estupradores.<\/strong><\/p>\n<p>A comunidade Yoruba \u00e9 dotada de\u00a0 cultos que s\u00e3o especializados em punir efetivamente a falta de integridade moral, o culto a Oro ou Ogboni s\u00e3o dois destes casos, com mais for\u00e7a no passado, h\u00e1 in\u00fameros relatos de serem considerados os justiceiros yoruba, e\u00a0 dentro das pr\u00f3prias comunidades \u00e9 comum que exista um grupo que forma o conselho e eles podem tamb\u00e9m tentar dirimir os conflitos locais,\u00a0 em ultima instancia o Rei, que pode condenar severamente algu\u00e9m. Hoje em alguma esfera o sistema yoruba ainda funciona, mesmo que com uma outra lei federal vigente, com corte, policia advogado e juri.<\/p>\n<p>Buscando referencias sobre o assunto, foi interessante notar que por conta das dogm\u00e1ticas crist\u00e3s e isl\u00e2micas serem ainda mais r\u00edgidas em rela\u00e7\u00e3o a mulher e a gravidez,\u00a0 encontrei relatos que buscaram tradicionalistas de Orisa para ajudar a abortar.<\/p>\n<p>Evidente tamb\u00e9m que depender\u00e1 do olhar de cada sacerdote sobre o caso, e dentro de todas sociedades do mundo, haver\u00e3o aqueles que, s\u00e3o a favor e contra o aborto.<\/p>\n<p><strong><b>Os novos yor\u00f9b\u00e1 <\/b><\/strong><\/p>\n<p>A juventude yor\u00f9b\u00e1 est\u00e1 abandonando os ritos tradicionais. \u00c9 poss\u00edvel ver cada vez mais jovens com numerosos filhos, sem que estejam comprometidos em um relacionamento de casamento. H\u00e1 rapazes cientes sobre as suas responsabilidades , e os que n\u00e3o s\u00e3o participativos. Ainda assim \u00e9 a para a mulher que a vida pode se tornar mais dif\u00edcil ap\u00f3s ter filhos antes de um casamento, e em algumas comunidades, j\u00e1 sofrem um pouco menos com a puni\u00e7\u00e3o social, mas ser\u00e1 mais dif\u00edcil que ela consiga uma uni\u00e3o est\u00e1vel.<\/p>\n<p>Evidente que a comunidade yor\u00f9b\u00e1 est\u00e1 revendo seus pr\u00f3prios conceitos, assim como a nossa sociedade tamb\u00e9m est\u00e1. Neste exato momento, no Brasil, estamos discutindo se aborto \u00e9 uma pr\u00e1tica aceit\u00e1vel ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Minha conclus\u00e3o \u00e9 que mulheres no mundo enfrentaram e enfrentam os mesmos problemas, e o principal \u00e9 n\u00e3o ter respaldo maior para decidir sobre seu pr\u00f3prio corpo. Com isso, buscam qualquer tipo de ajuda para que possam solucionar o caso e colocam em risco sua pr\u00f3pria vida. Em algumas situa\u00e7\u00f5es, os riscos de perder a pr\u00f3pria a vida ou de ter um filho indesejado acabam por ter igual peso na hora da decis\u00e3o de abortar.<\/p>\n<p><strong><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/b><\/strong><\/p>\n<p>KOSTER W. <strong><b>Secret Strategies: Women and Abortion in Yoruba Society Nigeria<\/b><\/strong>. PhD thesis. Faculty of Social and Behavioural Sciences (FMG). Amsterdam Institute for Social Science Research (AISSR). [Internet]. Amsterdan, p. 419, 2003. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/pure.uva.nl\/ws\/files\/3588332\/29478_Thesis.pdf&gt;. Acesso em: junho de 2022.<\/p>\n<p>RENNE EP. The pregnancy that doesn&#8217;t stay: the practice and perception of abortion by Ekiti Yoruba women. <strong><b>Soc Sci Med<\/b><\/strong>, v. 42, n.\u00ba 4, pp. 483-94, 1996.<\/p>\n<p>TEMISANREN E. Views of women in Yoruba culture and their impact on the abortion decision. <strong><b>Women Health<\/b><\/strong>, v. 22, n.\u00ba 3, pp. 1-8, 1995.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aborto em \u00e1rea yor\u00f9b\u00e1 Os Yor\u00f9b\u00e1 s\u00e3o formados pelos grupos de v\u00e1rias etnias que residem a \u00c1frica Ocidental e com maior popula\u00e7\u00e3o vivendo em Nig\u00e9ria. 30% deles s\u00e3o de praticantes tradicionalistas de Orisa e o restante foi convertido para o islamismo e cristianismo. 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